Quando dei conta, estava ali, observando... Como se fosse um fantasma.
O céu era sempre de uma cor um tanto estranha. Pairava entre um branco, devido ao fato de a luz do sol ser muito maior do que antes, e um cinza que dava a impressão de que tudo o que os olhos enxergavam estava em baixa fidelidade, em preto e branco.
Sempre as 10 da manhã o café estava sendo coado na cozinha de luz fluorescente e móveis pequenos. Mas aos finais de semana, o prazer era maior, o café tinha um gosto especial.
Saindo da cozinha, chegava-se primeiro a uma sala com muitos livros, alguns datados de épocas em que ninguém conhecido havia nascido. Além dos livros, alguns objetos feitos em ferro e cobre, algumas espadas forjadas milimetricamente, impondo um certo respeito apenas ao serem observadas. Ao lado desses, havia um estante, onde residia, um tanto empoeirado aparelho de TV e um rádio em madeira rústica. Seguia-se por um velho e confortável sofá e por fim, uma escrivaninha, com papéis e mais papéis, ensaios, escritos, contos, idéias, crônicas, cálculos, cartas, rabiscos, desenhos, partituras, contratos... Dentre esses papéis havia um que teimava em se destacar. Quando colocado à frente mostrou-se contendo vários escritos que ora se pareciam com um poema, ora com um ensaio musical. Entre desenhos de pausas, claves e notas rabiscadas por erros, assim estava escrito:
"As noites na velha cidade, onde eu contava todas as luzes...
O frio paralisava a idade... E o silêncio quebrado por vozes
No porto de mais densa neblina
Eu ouvia o cantar das águas
E aquele navio chegando à minha sina
Poderia acalmar minhas mágoas
Mas eu me reservei a não pensar
Justo naquela solidão
E deixei pra trás, não vi a velha cidade.
Nunca mais...
Não esqueci...
As noites na velha cidade.
Onde eu recebia quem me queria bem.
Em conversas de mais pura honestidade
Eu via as luzes e além
Em meio à tarde na cidade
Não sei se a deixava ou se lhe servia vinho
De tanto andar por todas as ruas
Não me viam mais, estava eu sozinho?"

No canto da sala havia uma escada e uma luz vinda de cima, de seu fim. Na parede contrária a essa escada havia uma janela com uma cortina em um tom escuro de verde. Olhei por essa janela, que dava a uma vista de um grandioso vale e um lago como enclave. Dentro dessa visão bucólica incluíam-se alguns monstros gigantescos. Alguns poucos estavam na beira do lago, outros derrubando pequenas árvores e se alimentando e mais alguns em cima de um morro como se estivessem uivando para o sol. Houve muita vontade de vê-los de perto, mas o bonito caminho que levava ao vale também impunha um certo receio.
Ao subir pela escada acabou em um corredor com alguns cômodos. O teto desse corredor era de vidro. Apesar de estar fazendo sol, aquela sensação de preto e branco não abandonava o local. Apesar do sol, sentia-se um tempo nublado.
Do corredor ouvia-se vozes. E depois música! A cada passo se reconhecia nas vozes, velhos amigos e nas melodias, velhas músicas... Mas e aquela casa? E aquele mundo? E aquelas músicas? Seriam meus? Seria eu, então?
Algo que foi sentido e se pensou que era o fim, foi o aperto no peito com tantas memórias vindo à tona. Os amigos, as músicas, a conexão com tudo o mais que estava sendo esquecido havia voltado em forma de um sentimento de falta.
Foi grande o desatino em direção ao cômodo. Lá não havia teto e o sol brilhava menos que o próprio cômodo. Ao se tentar enxergar algum rosto entre muitas vozes, objetos e barulho, a luz diminuiu e encontrei a cozinha, com o café sendo coado.
Desenho: Glaison Barbosa