17/11/2009

Cobalto

Aqui, bem longe
Onde a água alcança o alto
Onde não há mais horizonte
E o céu é azul cobalto
 
Chove no mar
E vejo como somos pequenos
Na colisão das águas
Nosso orgulho humano é ameno
 
Sinto medo
Medo de gostar daqui e admitir
E depois acordar cedo
De um sonho que deixei sumir
 
Talvez eu queira ir embora
deixa a desejar, essa raridade
Não é aqui onde mora
O quente acalanto da realidade

29/07/2009

Nova terra

Difícil dizer o que chama a minha atenção
Diante de tamanha estranheza nesse novo mundo
Luzes nascem e morrem ao correr de um segundo
Sem tempo de me conter a nenhum chão

Em questão de tempos confusos
Divido-me entre euforia do novo e medo do estranho
Meu discernimento acha falhas sem tamanho
Como se me faltassem parafusos

Encontrei algumas pessoas quase a ponto de sumir
E falei durante minutos apenas para dar bom dia
O cessar de muitas luzes é o que me guia
O que lembra o meu corpo para dormir

No provável único mar horizonte afora
Vejo o meu antigo lar sumindo a cada onda
Penso em achar alguém que me responda
O que fazer para querer ir embora

30/01/2009

Enclave

Quando dei conta, estava ali, observando... Como se fosse um fantasma.
O céu era sempre de uma cor um tanto estranha. Pairava entre um branco, devido ao fato de a luz do sol ser muito maior do que antes, e um cinza que dava a impressão de que tudo o que os olhos enxergavam estava em baixa fidelidade, em preto e branco.
Sempre as 10 da manhã o café estava sendo coado na cozinha de luz fluorescente e móveis pequenos. Mas aos finais de semana, o prazer era maior, o café tinha um gosto especial.
Saindo da cozinha, chegava-se primeiro a uma sala com muitos livros, alguns datados de épocas em que ninguém conhecido havia nascido. Além dos livros, alguns objetos feitos em ferro e cobre, algumas espadas forjadas milimetricamente, impondo um certo respeito apenas ao serem observadas. Ao lado desses, havia um estante, onde residia, um tanto empoeirado aparelho de TV e um rádio em madeira rústica. Seguia-se por um velho e confortável sofá e por fim, uma escrivaninha, com papéis e mais papéis, ensaios, escritos, contos, idéias, crônicas, cálculos, cartas, rabiscos, desenhos, partituras, contratos... Dentre esses papéis havia um que teimava em se destacar. Quando colocado à frente mostrou-se contendo vários escritos que ora se pareciam com um poema, ora com um ensaio musical. Entre desenhos de pausas, claves e notas rabiscadas por erros, assim estava escrito:

"As noites na velha cidade, onde eu contava todas as luzes...
O frio paralisava a idade... E o silêncio quebrado por vozes

No porto de mais densa neblina
Eu ouvia o cantar das águas
E aquele navio chegando à minha sina
Poderia acalmar minhas mágoas

Mas eu me reservei a não pensar
Justo naquela solidão
E deixei pra trás, não vi a velha cidade.
Nunca mais...
Não esqueci...

As noites na velha cidade.
Onde eu recebia quem me queria bem.
Em conversas de mais pura honestidade
Eu via as luzes e além

Em meio à tarde na cidade
Não sei se a deixava ou se lhe servia vinho
De tanto andar por todas as ruas
Não me viam mais, estava eu sozinho?"


No canto da sala havia uma escada e uma luz vinda de cima, de seu fim. Na parede contrária a essa escada havia uma janela com uma cortina em um tom escuro de verde. Olhei por essa janela, que dava a uma vista de um grandioso vale e um lago como enclave. Dentro dessa visão bucólica incluíam-se alguns monstros gigantescos. Alguns poucos estavam na beira do lago, outros derrubando pequenas árvores e se alimentando e mais alguns em cima de um morro como se estivessem uivando para o sol. Houve muita vontade de vê-los de perto, mas o bonito caminho que levava ao vale também impunha um certo receio.
Ao subir pela escada acabou em um corredor com alguns cômodos. O teto desse corredor era de vidro. Apesar de estar fazendo sol, aquela sensação de preto e branco não abandonava o local. Apesar do sol, sentia-se um tempo nublado.
Do corredor ouvia-se vozes. E depois música! A cada passo se reconhecia nas vozes, velhos amigos e nas melodias, velhas músicas... Mas e aquela casa? E aquele mundo? E aquelas músicas? Seriam meus? Seria eu, então?
Algo que foi sentido e se pensou que era o fim, foi o aperto no peito com tantas memórias vindo à tona. Os amigos, as músicas, a conexão com tudo o mais que estava sendo esquecido havia voltado em forma de um sentimento de falta.
Foi grande o desatino em direção ao cômodo. Lá não havia teto e o sol brilhava menos que o próprio cômodo. Ao se tentar enxergar algum rosto entre muitas vozes, objetos e barulho, a luz diminuiu e encontrei a cozinha, com o café sendo coado.

Desenho: Glaison Barbosa

04/01/2009

"Universo (rodeando você)
Quando você estiver certa, ele esperará (por nós para) partir dessa terra
Vamos, eles chamam seu nome, saia...
Eu não sei, eu poderia ficar ou partir
Tanto faz,
Porque um cometa pode nos pegar, de todas as maneiras, até o fim... Adeus..."
(Xerces - Deftones)


24/11/2008

A máscara

Para tantos outros fins, tu me acordas
Mas o acordo que temos, não respeitas
Se toco um acorde, tu me abordas
E se não dou corda, me espreitas

A carta que me entregas agora
É um curto conto sobre nós
Encarta o vazio, dueto afora
E corta minha face de algoz

O que custa sair de dois,
Se sempre encostas a mea culpa aqui?
Se vira as costas ao que sois
Casta a máscara que eu não traduzi

Sem pensar, queimo a cama e liberto a mim
Ninho de veneno, como esse que você toma
Teu tempero não se come e a razão fica assim...
Em coma.

28/07/2008

A imparcialidade da fé


O rapaz estava na casa do pai de sua namorada, pedindo a mão da mesma em casamento, após ter desfrutado de uma saborosa feijoada.
O pai da moça disse ao rapaz que o casaria com sua filha caso ele lhe deixasse algum dote em seu quintal no nascer do dia seguinte.
O rapaz ficou furioso e, por vingança, defecou viciosamente a digestão da saborosa refeição no quintal que esperava o dote.
No outro dia passou a ter fé, casou-se e foi feliz para sempre quando ao nascer do sol, no lugar de suas fezes vingativas, haviam pés de couve, pés de feijão e uma criação de porcos.

15/05/2008

Ouija


- Apaga a luz aí.
- E agora pra relaxar? O de sempre?
- Vamo aí... Fazer um mantra, se concentrar.
- Dá a mão aí todo mundo.
- ..........................
-...........................
-...........................
-............................
-............................
- Não faz força com o dedo se não, não anda.
- Tem alguém aí? Vou perguntar de novo: Tem alguém aí?
-.......
- Certo. E você estava ali perto da encruzilhada? Alguém... Pergunta alguma coisa aí.
- Quem vai ser o primeiro a ter filho aqui?
- uHAUahuAHUhaUAHuhauHuauAHu
- uHAUahuAHUhaUAHuhauHuauAHu
- uHAUahuAHUhaUAHuhauHuauAHu!!!! Logo quem vai ter filho primeiro que todos!!
- Tem mais alguém aqui além de você?
- Hum... É adulto ou criança?
- E onde ele está exatamente?
-.........
- É mulher mano... Claro que do meu lado... uHAUhauHAUhauHAUhauHA. É mulher que tá do meu lado?
- Falou então, ô bonitão...
- Não falei que era mulher?
- Ainda seremos amigos por muito tempo?
- Quando a gente não te chama você fica por aqui?
- E algum outro... Fica por aqui?
- O meu último nome começa com que letra?
- Hum...
- Em que ano você morreu?
- Vixi...
- Você morava por aqui?
- Você morreu naturalmente?
- E você? Não vai fazer nenhuma pergunta?
- Hoje só tô acompanhando...
- Deixa a mina aí...
- Você acha certo a gente fazer isso?
- Hum...
- O cansaço que a gente sente... é por causa disso?
- Ah cara, quando a gente termina, me dá mó fomão...
- E ali na encruzilhada? Você vem de lá?
- Tem alguém te esperando por lá?
-..........
-..........
-..........
- Mais alguém tem alguma coisa pra perguntar? Eu já tô de saco cheio.
- Então, obrigado pela presença, vá em paz e esperamos que você volte qualquer dia desses.
-..........
-..........
- Acende a luz lá cara...
- Huuuuuuuuummmmm.... Que cansaço que dá mano... Vamos comer uma pizza? Rola uma vaquinha aí?
- Eu tenho 3 reais aqui...
- Eu tenho aqui...
- Mano, essa mina tá muito estranha... Dá um ligo.
- E aí mina, tá tudo certo aí?
- Tudo bem...
- NOSSA!!!
- QUE PORRA É ESSA????
- CALMA MANO, AFASTA QUE EU JÁ SEI O QUE É...
- MANO, É MINHA MINA, VAI COM CALMA AÍ... O QUE ELA TEM???
- Dá um tempo mano, acho que baixou alguem nela...
- Nossa véio, nunca vi isso na minha vida...
- MANO..... dá um tempo! Num adianta ficar sacudindo a mina. Dá um tempo...
- E aí? Quem é você?
- ashjkdc firfjkcv lr, vmfvmfv
- Fala pra mim quem é você...
- O que você quer? Cigarro?
- Não vou dar não. Vai embora que aqui não tem nada pra você.
- sanjhcfnlhcmuhrcaokçcafpoo
- Se você quiser outra coisa, a gente dá, mas cigarro não tem não.
- dá pinga...
- Aqui não tem pinga pra você não. Vai embora logo que ninguém vai dar nada pra você.
- Mano, dá alguma coisa logo pra ele ir embora..
- Tem que dar nada não. Se não ele não vai embora mesmo.
-..........
-..........
-..........
-..........
- Faz o seguinte mano: Desce lá em casa e acende um cigarro. E leva ele com você.
- Vamo lá mano, deixa ela aí que não tem muito o que fazer. Se acalma.
- Mano, o que foi isso que aconteceu com a minha muié?
- Num sei véio nunca tinha visto isso. Acendeu o cigarro aí? Vamos lá.
- Tó o cigarro aí.
- Olha o cigarro. Se eu der esse cigarro você vai fumar e depois vai embora?
- Vai mesmo?
- Vou te dar e depois você vai embora.
- Quem é você?
- shdnlxukxkejmlemjfo,jeisai.... Fala pra esse menino aí pra não assustar não. Depois eu devolvo a namorada dele...
- Era você que estava aqui agora há pouco?
- Era... Agora eu quero pinga. Se não der pinga eu não vou embora.
- Você já fumou seu cigarro. Vai embora.
- Se não der pinga eu não vou embora.
- Toma então. Depois vai embora
- Fala pra esse menino aí num se assustar...
-..........
-..........
-..........
-..........
- Acho que foi embora
- E aí mina, beleza aí?
- Beleza. Tô bem, já passou... Só quero ir embora.
- E a pizza hein? Vai deixar quieto?